No regresso da nossa rúbrica "Pegadas Literárias", trazemos-lhe Bruce Chatwin, um dos escritores de literatura de viagens mais influentes do século XX e alguém que foi um dos maiores precursores do género. Acompanhado de Chatwin abordamos, Na Patagónia, o livro que fica na história como o seu mais célebre e que se tornou por mérito próprio um clássico da literatura contemporânea, alcançando o estatuto de obra que segundo o The Guardian «conferiu novos contornos à literatura de viagens».  

A primeira vez que ouvi falar de Bruce Chatwin corria o ano de 2008 e o seu nome foi-me introduzido na primeira aula de um workshop de Literatura de Viagens que tive o privilégio de frequentar. Na Patagónia, não foi o primeiro livro que li de Chatwin, mas ao ser frequentemente referido como o mais "mítico", era inevitável que chegasse o momento da sua leitura. Para além disso - Na Patagónia - foi a seu primeiro livro editado, e nada como observar o crescimento de determinado autor, lendo a sua obra partindo da cronologia da sua escrita.

Na Patagónia, não é apenas um livro que nos faz mover na dimensão espacial deste território singular, uma vez que ao longo das suas páginas somos conduzidos pela geografia, saltitando, entre Chile e Argentina, entre pueblos costeiros, territórios poeirentos e desérticos, florestas, lagos, montanhas nevadas, vales profundos e pedregosos, bosques, rios, ilhas e mares de cinza, azul e sangue. Não. Mais importante que esse espaço geográfico, é a dimensão temporal que se torna no coração pulsante desta obra. Chatwin através de personagens errantes e intrigantes, leva-nos numa viagem histórica que atravessa grande parte do território e que se vai tornando no fio que nos guia através deste autêntico labirinto do Minotauro.

 

"O deserto da Patagónia não é um deserto de areia, ou cascalho, mas uma extensão de arbustos espinhosos de folhas cinzentas que, quando esmagadas, largam um odor desagradável. Contrariamente aos desertos da Árabia, nunca provocou nenhuma manisfestação espiritual espetacular, mas tem o seu lugar nos arquivos da experiência humana. Charles Darwin achou irresistivél as suas qualidades negativas."

"Patagónia! - exclamou. - É uma amante possessiva. Enfeitiça. Uma autêntica sedutora. Envolve-nos nos seus braços e nunca mais nos deixa partir."

"[...] O meu deus é o deus dos andarilhos. Quando se anda muito, provavelmente não se precisa de outro deus."

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